A influência da cultura nas metodologias esportivas


Por Marcelo Antonelli e Tiago Corradine

Revisado por Vinícius Nagy Soares

Ilustração: Nathalia Servadio

Introdução

Nas últimas décadas, cresceram as discussões sobre diferentes estratégias pedagógicas de ensino do futebol, cujas vantagens e desvantagens foram debatidas em uma grande variedade de cenários. Apesar disso, a cultura é uma variável pouco frequente nas narrativas sobre futebol e que consideramos determinante para as escolhas metodológicas, sendo fundamental identificar sua influência nos programas de treinamento. Neste artigo, iniciaremos discussões acerca desse tema por meio da análise de experiências transculturais, promovendo reflexões sobre um processo de ensino-aprendizagem mais abrangente do que o habitual.

Como você decide o método de treinamento? (Por Marcelo Antonelli)

O que determina a maneira como você treina? A resposta parece óbvia e tem a ver com suas experiências de vida. Ou seja, se você tirou licença de futebol, os conteúdos com os quais teve acesso provavelmente influenciarão suas escolhas metodológicas. Se você cursou Educação Física e fez disciplinas de aprofundamento em Treinamento Esportivo, parte dessa bagagem acadêmica será levada ao campo de futebol. A maneira como você foi treinado também influenciará suas escolhas. Além disso, se você trabalha em um clube que segue uma proposta metodológica específica, provavelmente haverá um direcionamento a ser seguido.

Mas qual é o peso da cultura nas suas escolhas metodológicas? Essa cultura é capaz de influenciar os demais atores do futebol, como atletas e comissão técnica? Tratam-se de perguntas difíceis de se responder. Talvez seja necessário vivenciar diferentes experiências culturais para formar uma opinião mais precisa sobre esse tema. Nesse sentido, cresci no Brasil, joguei futsal na Itália por seis anos, tive passagem de um semestre na Suécia e na Inglaterra, morei durante oito anos na região leste dos EUA e, desde 2015, estou na Califórnia (região oeste dos EUA).


Em toda grande mudança geográfica, a mudança cultural era iminente. É claro que devemos ser parcimoniosos em nossas suposições culturais, pois tratam-se de experiências subjetivas influenciadas pela bagagem cultural individual, produzindo ideias e ações únicas. No entanto, ao generalizar para entender o todo, podemos associar mudanças geográficas às diferenças culturais.


O ponto que discutiremos neste artigo é se as diferenças culturais podem afetar as metodologias do futebol, assim como a visão dos atletas sobre o processo de treinamento. E, mais especificamente, comparar os dois países onde passei a maior parte da minha vida, Brasil e EUA.


Há algumas semanas, Tiago Corradine, um amigo que cursou Ciências do Esporte comigo na UNICAMP, enviou-me um texto sobre suas experiências durante quatro meses como treinador de futebol juvenil, nos EUA. Enquanto lia o material, lembrei-me de passar por experiências muito semelhantes desde a minha chegada aos EUA, em 2006. Embora estivéssemos discutindo há anos metodologias diferentes e outras estratégias pedagógicas para desenvolver jogadores e equipes, a leitura de seus relatos deixou claro que essas discussões pedagógicas devem ser consideradas na perspectiva da cultura.


E isso é importante? Absolutamente! Afinal, nossas decisões pedagógicas têm grande influência no desenvolvimento de nossos jogadores. As questões que estamos considerando é o que podemos aprender com a influência da cultura e como isso pode afetar a maneira como lideramos nossas equipes. Nesse sentido, vamos conhecer uma pouco mais sobre a experiência do Tiago Corradine.

Experiência brasileira nos Estados Unidos (por Tiago Corradine)

Para nós, brasileiros, o futebol tem um sentimento de posse maior do que para um norte americano. O brasileiro identifica-se muito mais com essa modalidade, pois é parte essencial da cultura. As crianças ganham uma bola como um dos primeiros brinquedos. Aprendem a chutar enquanto vivenciam seus primeiros passos. Tudo isso é muito forte na cultura brasileira. Por outro lado, os EUA possuem um vasto repertório de práticas esportivas. Basta verificar os resultados expressivos nas Olimpíadas e os inúmeros campeonatos de diferentes modalidades, as quais possuem lugar de destaque na mídia esportiva norte americana. Isso reflete na cultura esportiva das escolas e nos espaços públicos voltados à prática esportiva. Existem opções em abundância nos EUA, enquanto que no Brasil o panorama é bem diferente.


O norte americano usa as modalidades esportivas como meio educacional, sendo valorizado o papel do esporte na formação dos cidadãos norte-americanos. Mesmo sem alcançar o nível profissional ou olímpico, a sociedade americana incentiva e valoriza o esporte como parte da rotina. Esse retrato é bem diferente no Brasil, onde o futebol é visto como possibilidade de ascensão social. As outras modalidades não são incentivadas e não ganham tanta visibilidade na mídia. Considerando que parcela significativa da população tem pouco acesso à saúde, educação, segurança e emprego formal, o futebol acaba tornando-se uma opção bastante concorrida para a ascensão socioeconômica.

Isso pode nos ajudar a entender a importância do futebol na sociedade brasileira, em contraposição aos EUA, onde a maioria dos jovens tem grande oferta de opções educacionais e, consequentemente, consegue planejar e criar mais condições de sucesso pessoal e profissional. Tudo isso extrapola as 4 linhas do campo. É um projeto social, político e educacional que uma sociedade constrói como nação. São anos de história, escolhas e consequências. Não é algo que pode ser modificado do dia para a noite. Trata-se de um processo.


Apesar de o futebol ter sido influenciado pela sociedade inglesa, o Brasil criou uma identidade de jogo que conquistou o mundo. Outras nações também criaram seu próprio estilo, como Alemanha, Itália, Holanda e Argentina, mas a cultura brasileira foi mais exitosa ao abraçar esse esporte. A criatividade que o brasileiro manifesta em sua subsistência está presente no futebol. O jeito alegre de encarar a vida, apesar das dificuldades, faz parte do estilo brasileiro de jogar. A diversidade étnica da nossa população também foi incorporada à modalidade. É por isso que o brasileiro e o futebol formam uma combinação interessante.


Vale ressaltar que o futebol foi incorporado de maneira harmônica em nossa sociedade, diferentemente de outros países que realizaram uma imposição abrupta desse esporte. É o que sinto na sociedade norte americana. O futebol é a modalidade mais assistida no mundo, ultrapassou fronteiras e acabou tornando-se um dos negócios mais rentáveis do planeta. Além de ser a maior manifestação cultural do mundo, tornou-se também um excelente investimento financeiro. A sociedade americana, acompanhando de fora esse fenômeno, decidiu que deveria participar dessa oportunidade e tentou agregar o futebol em sua cultura esportiva. No entanto, uma mudança dessa magnitude não acontece rapidamente. Além disso, há modalidades esportivas com fortes raízes na cultura norte americana, como o futebol americano, beisebol, basquete, hóquei, golfe, além de outras modalidades olímpicas. Os EUA exibem sua hegemonia nessas modalidades, exportando para o mundo um determinado padrão esportivo. O futebol ainda não atingiu esse poder de pertencimento e de relevância na sociedade norte americano, e não sei algum dia atingirá.


Isso influencia na forma como se pratica a modalidade. O brasileiro brinca, joga e se diverte. O norte americano treina futebol, algo bem diferente ao que acontece com outras modalidades, pois presenciei inúmeras vezes crianças e adultos brincando em quadras públicas de basquete, jogando futebol americano nos gramados dos parques e se divertindo com o beisebol nos quintais de suas casas.


Ao refletir sobre o jogo e a pedagogia do futebol sou levado a pensar na liberdade para brincar, pois é durante a brincadeira que estimulamos a criatividade, bem como interações ambientais relevantes. Corro o risco de errar, mas todos que encaram o futebol como algo a ser ensinado percebem que é necessário aprender sobre algo, o que vai além da repetição de gestos técnicos. Acredito que uma boa abordagem pedagógica não é aquela que enaltece e classifica um único gesto como correto, o qual deverá ser imitado de maneira automatizada sem considerar a tomada de decisão e as inúmeras possibilidades geradas pela complexidade do jogo. A boa pedagogia é aquela que permite ao aluno vivenciar um processo de ensino-aprendizagem pautado na liberdade de exploração, fazendo com que a criança construa o seu gesto motor embasado nas competências essenciais e gerais da modalidade, que juntas formam as competências básicas do jogo.


O jogo e seus fundamentos são temas importantes no processo de ensino-aprendizagem, porém não são os únicos. Sugiro abordar conteúdos como hábitos que levam à ampliação do repertório motor, o futebol como uma manifestação cultural, além de adotar estratégias voltadas ao desenvolvimento da solidariedade, cooperação, autonomia e criatividade. Temas do cotidiano também devem ser abordados, pois estão interconectados com nossa forma de pensar e agir, sendo possível promover reflexões acerca do futebol no âmbito da economia, história, política, saúde, moral, ética, mídia, sociedade etc.


A ideia consiste em tornar o aluno um agente propulsor e transformador do seu tempo, influenciado pelo pensamento coletivo e de cidadania que lhe faça entender as conjunturas de nossa sociedade, além de criar condições para viver bem, independente do esporte como prática de lazer ou profissional. Nesse sentido, se entendemos a pedagogia como um caminho refletido que nos leva ao saber, logo conseguiremos definir “o que”, “como” e “para quem” ensinar futebol, sendo este entendido como um jogo, construído historicamente, carregado de signos populares, símbolos, fantasias e sonhos (SCAGLIA, 1999).


De acordo com a teoria construtivista, Freire (2003) destaca quatro princípios pedagógicos norteadores de todo o processo de ensino-aprendizagem no futebol, resgatando o lúdico e criando espaço para utilização da cultura popular infantil. O primeiro diz respeito à necessidade de se ensinar futebol a todos, não discriminando os que têm menos habilidade para o jogo. O segundo princípio reforça o primeiro, enfatizando que não basta ensinar, deve-se ensinar bem e a todos. Ou seja, aqueles que jogam com desenvoltura devem se aprimorar, ao passo que os menos proficientes também devem adquirir novos conhecimentos. O terceiro princípio afirma que não basta o ensino restringir-se à prática do futebol, pois deve-se possibilitar na práxis pedagógica o resgate de valores éticos e morais, indicando que o professor deve ser capaz de ensinar muito mais do que futebol. Já o quarto e último, refere-se à necessidade premente de fazer com que os alunos gostem do esporte, levando-o para o resto da vida (SCAGLIA, 1999).


Quanto ao desenvolvimento das habilidades motoras, Freire (2003) diz que os músculos só podem realizar duas ações, contrair e relaxar. Ao imaginar que nossos músculos se comportam de maneira binária, é interessante pensar que mesmo com essa aparente “limitação” somos capazes de produzir movimentos complexos, sobretudo durante a prática de diferentes modalidades esportivas. Segundo Freire (2003), para ensinar esporte é preciso que existam alguns requisitos básicos, provenientes de suas brincadeiras, sendo adaptados para a aprendizagem da criança e direcionados aos aspectos de ensino no futebol.

“Ensinar futebol a todos: qualquer pessoa pode aprender a jogar futebol, não desprezando a importância dos fatores genéticos, mas esses fatores não podem impedir a aprendizagem de quem quer que seja. Não podemos interferir geneticamente a formação do conhecimento, mas podemos interferir na aprendizagem. De modo que aqueles que já sabem jogar futebol devem ser orientados para aprender a jogar melhor; aqueles que sabem muito pouco ou nada de futebol devem receber toda a atenção até que aprendam, no mínimo, o suficiente;

Ensinar futebol bem a todos: não basta ensinar, é preciso ensinar bem. A tarefa de quem ensina futebol não é ensinar qualquer coisa. Temos que ensinar cada aluno, não importa o nível de habilidade com que inicie, com as melhores técnicas, com o maior cuidado, de modo que possa, ao longo do tempo, expressar habilidades para jogar futebol de boa qualidade... alguns com menor tempo outros com maior demora. Não importa, todo processo pedagógico exige tempo;

Ensinar mais que futebol a todos: além de ensinar futebol a todos e ensinar bem, a tarefa educacional supõe preparar sempre para algo mais que a atividade específica da escola.

Quem aprende futebol pode desenvolver um acervo de habilidades bastante diversificado, podendo aproveitar essas habilidades em muitos outros esportes. Além disso, poderá estar aprendendo a conviver em grupo, a construir regras, a discutir e até discordar dessas regras, e mudá-las, com rica contribuição para seu desenvolvimento moral e social;

Ensinar a gostar do esporte: as práticas devem ser dinâmicas, alegres, livres, de acordo com as características típicas de uma criança ou de um adolescente. As práticas mecânicas, rotineiras e monótonas acabam por ensinar a não gostar do esporte” (Freire, 2003, p 8-9.).

Influência além do campo (por Marcelo Antonelli)

Lendo esse material e recordando minhas experiências nos dois países, fica evidente que certas características da cultura influenciam a maneira de treinar e de perceber o processo, seja por parte dos jogadores, pais ou treinadores. E a discussão vai muito além de uma retórica puramente metodológico, como os debates entre o método analítico ou baseado em jogos. De fato, embora nosso foco seja metodológico a fim de otimizar os resultados do treinamento, não podemos desconsiderar o fato de que uma parcela ínfima dos praticantes atuará profissionalmente. A influência da cultura no treinamento transcende as escolhas metodológicas designadas ao conteúdo do jogo. Essa influência pode moldar valores, habilidades de comunicação e até mesmo a visão de um jogador sobre seu papel na sociedade.

Considerando o mundo em que vivemos, cada dia mais conectado e com os benefícios e desafios que a tecnologia impõe, as experiências transculturais podem ser importantes no desenvolvimento de jogadores, dentro e fora de campo. Lembrando que a experiência transcultural não se limita ao intercâmbio entre diferentes países. Na verdade, uma simples ponte que separa dois bairros pode ser o elo de comunicação entre pessoas com saberes diferentes e complementares.

Pensamentos finais

Poderia um conhecimento cultural amplo (de várias nações) contribuir para o desenvolvimento de novos métodos de treinamento?

Quais fatores de outras culturas poderíamos adicionar em nossas práticas pedagógicas de ensino-aprendizagem dos esportes de base?

Esses elementos adicionais beneficiam o esporte, os cidadãos ou ambos?

Existe muito conhecimento em todo o mundo, sendo as experiencias transculturais promotoras de desenvolvimento humano.

Dos Estados Unidos, admiramos um modelo de esporte de base que é uma indústria bilionária e que tem muito a ensinar ao Brasil em termos de organização e marketing, além das possibilidades de interação entre a formação esportiva, acadêmica e profissional.

Em nossas experiências, levamos o sonho, a paixão e o improviso. Do Brasil, admiramos a liberdade, a criatividade, a plasticidade e a alegria de jogar. É como se os EUA fossem a razão e, o Brasil, a emoção. É como se nos EUA predominasse a ciência e, no Brasil, a arte. Um complementa o outro, como Yin-Yang.

Para exemplificar nossas conclusões, queremos compartilhar uma metáfora interessante entre o futebol e o teatro. Quando um grupo começa a construir uma peça de teatro, há várias pessoas envolvidas, como atores, roteiristas, figurinistas e maquiadores. Depois de vários ensaios e reuniões o espetáculo fica pronto e começa a temporada nas salas de teatro. Quando nós, espectadores, assistimos ao espetáculo, notamos apenas a atuação dos atores, desconsiderando a equipe que trabalhou para que o espetáculo fosse possível. No futebol também é assim. Afinal, temos jogadores, treinadores, preparadores físicos, fisioterapeutas, nutricionistas, entre tantos outros profissionais. Quando assistimos ao jogo, observamos os atletas e sua dedicação na partida, com suas estratégias estabelecidas e treinadas durante a semana, com auxílio de toda a equipe de profissionais que tornaram possível a realização do jogo. Tanto o ator quanto o atleta são pessoas que atuam/jogam. Cada um possui uma bagagem histórica e cultural. O jogo/cena nem sempre acontece como foi treinado/ensaiado, fazendo com que o jogador/ator tome decisões em um curto intervalo de tempo. Cria-se o improviso - momento em que o ser humano que joga/atua deixa transparecer sua essência. É neste exato momento que arte e ciência se confundem.

Nessa perspectiva, terminaremos com o poema do amigo Eduardo Zuma, atualmente auxiliar técnico do São Paulo FC.

“E o que é o Futebol (para mim)? Futebol é um domingo descalço, jogando bola entre amigos. É o meu primeiro amor e minha terapia de todos os dias. Com chuva ou com Sol, correndo atrás da bola, me esqueço da hora. Aos poucos, a gente cresce, os pés antes no chão, agora vestem chuteiras.

E o que muda? Mudam regras, muda o tamanho das traves e as medidas do campo. E o amor pela bola? O amor não morre jamais, O futebol me fez crescer, me fez uma pessoa melhor. As chuteiras incomodam, O treinador algumas vezes me irrita, E as pessoas em volta poderiam ficar em silêncio e deixar as crianças desfrutarem o jogo. Mas, ainda é futebol… Ao invés de desistir, preferi persistir,

O amor não é perfeito Talvez por isso o futebol me encante. Diante das imperfeições, das tentativas frustradas, derrotas dolorosas em que me senti só,

Mas escolhi ver o lado bom da vida.

Meus melhores amigos, minhas melhores experiências estão intactas em minha memória, Algumas vitórias… tudo isso foi o futebol que me deu. Como eu, diz um sábio Professor (João Freire) “O futebol tem tudo. Tudo de bom e de ruim.” Escolho o amor que o jogo me despertou, A solidariedade que meu amigo tiveram comigo quando eu não estava nos meus melhores dias. E se os pés já não estão descalços, O meu coração vai seguindo os princípios de quando o futebol ainda era uma brincadeira de domingo com os amigos. Se permita ser o melhor que você pode ser, A fé do seu coração e a força da sua mente

São capazes de coisas INIMAGINÁVEIS!”

Referências Bibliográficas

  • Scaglia, Alcides José. "O futebol que se aprende e o futebol que se ensina." (1999). (dissertação de mestrado)

  • Freire, João Batista. Pedagogia do futebol. Autores Associados, 2003.

Contato dos autores: Tiago Corradine: @tiagocorradine @CorradineTiago tiagocorradine@gmail.com Marcelo Antonelli: @MarAntonelli1 @soccerpoweredbyfutsal


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